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| Vista Parcial de Cons. Lafaiete-MG
Meus Oito Anos / Tempo bom...
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Casimiro de Abreu / João de Assis
“Ai que
saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os
anos não trazem mais...”
Era um tempo de
glória... um tempo de inesquecíveis momentos de felicidade... ainda não tinham
inventado o estres... eu andava nas ruas “da camisa aberto o peito, pés
descalços braços nus...” não havia asfalto... só calçadas com
paralelepípedos... e passando de casa em casa, ouvia os rádios de cada uma...
se fosse no período da tarde, no horário das duas às quatro horas, só ouvia
novelas... eram os Teatros Gessy-lever e Teatro Palmolive, ambos da Rádio
Nacional do Rio de Janeiro... elas eram a grande febre das mocinhas e das
“donas de casa”... em outro horário, campeava as vozes saudosas de Anisio Silva
com “Quero beijar-te as mãos” e Nelson Gonçalves com “Boemia”, entre outros sucessos da época... graças ao
bom Deus, ainda não havia televisão...
havia mais solidariedade... havia mais amor... havia menos pobreza... era muito comum criar no
fundo dos quintais, um porco ou umas galinhas... e quando matava um porco lá em
casa, a vizinhança toda comia carne naqueles dias... poucas pessoas possuíam
geladeira... quem tinha era considerado rico... e minha mãe, como todas a suas
vizinhas, guardavam a carne oriundas da matança do porco cozidas e imersas na
gordura... e durava até meses...
Os católicos, e
quase todo mundo era católico... na hora do almoço sintonizavam o rádio, na
Rádio Aparecida para ouvir aquela voz rouca do Padre Victor... “Meio dia... os
ponteiros apontam para o infinito...” tendo ao fundo o som harmonioso de um
órgão, tocando o hino “Viva a Mãe de Deus e nossa”
“Que doce a
vida não era naquela risonha manhã...” minha irmã, neste tempo era noiva e fazia
“filet”... “filet” era uma espécie de bordado feito em um quadro de madeira,
que ela colocando-o no colo, ficava horas a fio entrelaçando aquela linha
grossa...
Não havia
supermercados, só armazéns... bacalhau era comida de pobre... e ficavam
expostos em caixotes, nas portas das “vendas” (este era também o segundo nome
como eram chamados os armazéns).
Á noite nas
igrejas tinham as novenas... e tanto elas, como as Missas, eram rezadas em
latim... “Dommino Vobiscum”, dizia o padre... “et cum spritun tuo”, respondia o
coroinha... e eu fui coroinha... os padres naquele tempo acompanhavam os
enterros... e eu tinha que acompanhar com ele... muito cedo eu conheci
cemitérios...
Fazia mandados
para a vizinhança... isto era muito comum... todos os garotos faziam...
À tarde, no fim
do dia “Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras..”,
reuníamos para jogar bola em algum terreno baldio... quem chegava atrasado ficava sem jogar... e
isto era “a morte” para quem ficava de fora... mas nem por isso chegávamos a
brigar...
À noite nos
reuníamos na praça e ficávamos contando casos... os mais “vivos” contavam “vantagens”, e isto
aumentava em muito seus prestígios entre nós...
às dez horas(vinte e duas horas) no máximo, entrávamos em casa para
dormir e “... achava o céu sempre lindo, adormecia sorrindo e despertava a
cantar”.
Hoje vejo com
tristeza o quanto o mundo mudou as pessoas... foi criado uma nova linguagem
para o amor... uma nova linguagem para a solidariedade... um novo modo de se
conviver... e para resumir esta mudança eu digo apenas isso: hoje já não se
criam porcos no fundo dos quintais como se criava antigamente... mas quando deparamos com alguma exceção, este
criador ao matar seu porco, vai até o vizinho de frente e pergunta se ele
deseja comprar o “lombo”...















